ATENDIMENTO EDUCACIONAL ESPECIALIZADO (AEE)

Conheça as salas de recurso que funcionam de verdade para a inclusão

Posted on: 05/05/2010

Alunos com deficiência precisam desenvolver habilidades para participar das aulas. Saiba como esse trabalho deve ser feito no contraturno.

Camila Monroe (camila.monroe@abril.com.br).
Colaborou: Beatriz Santomauro

LEITURA NO TATO O trabalho com letras móveis em braile ajuda os alunos com deficiência visual na alfabetização. Fotos: Marina Piedade

Os números do último Censo Escolar são o retrato claro de uma nova tendência: a Educação de alunos com deficiência se dá, agora, majoritariamente em classes regulares. Seis em cada dez alunos nessa condição estão matriculados em salas comuns – em 2001, esse índice era de apenas dois em cada dez estudantes. O aumento merece ser comemorado, mas que não esconde um grande desafio: como garantir que, além de frequentar as aulas, crianças e jovens aprendam de verdade?

A tarefa tem naquilo que os especialistas chamam de Atendimento Educacional Especializado (AEE) um importante aliado. Instituído pelo mesmo documento que em 2008 concebeu as diretrizes para a inclusão escolar, mas regulamentado apenas no fim do ano passado, o AEE ocorre no contraturno nas salas de recursos, ambientes adaptados para auxiliar indivíduos com uma ou mais deficiências (veja nas fotos que ilustram esta reportagem alguns dos principais equipamentos utilizados em três escolas da capital paulista: EE Emiliano Augusto Cavalcanti de Albuquerque e Melo, EMEF João XXIII e EMEI Professor Benedicto Castrucci). Segundo o Censo Escolar, atualmente 27% dos alunos matriculados em classes comuns do ensino regular recebem esse apoio. Se a implantação das 15 mil novas salas prometidas para este ano de fato ocorrer, o atendimento alcançará mais de 50% das matrículas – em números absolutos, cerca de 190 mil estudantes.

Trabalho não se confunde com atividades de reforço escolar

Diferentemente do que muitos pensam, o foco do trabalho não é clínico. É pedagógico. Nas salas de recursos, um professor (auxiliado quando necessário por cuidadores que amparam os que possuem dificuldade de locomoção, por exemplo) prepara o aluno para desenvolver habilidades e utilizar instrumentos de apoio que facilitem o aprendizado nas aulas regulares. “Se for necessário atendimento médico, o procedimento é o mesmo que o adotado para qualquer um: encaminha-se para um profissional da saúde. Na sala, ele é atendido por um professor especializado, que está lá para ensinar”, diz Rossana Ramos, especialista no tema da Universidade Federal de Pernambuco.

Os exemplos de aprendizagem são variados. Estudantes cegos aprendem o braile para a leitura, alunos surdos estudam o alfabeto em Libras para se beneficiar do intérprete em sala, crianças com deficiência intelectual utilizam jogos pedagógicos que complementam a aprendizagem, jovens com paralisia descobrem como usar uma prancheta de figuras com ações como “beber água” e “ir ao banheiro”, apontando-as sempre que necessário. “Desenvolver essas habilidades é essencial para que as pessoas com deficiência não se sintam excluídas e as demais as vejam com normalidade”, diz Maria Teresa Mantoan, docente da faculdade de Educação da Universidade Estadual de Campinas (Unicamp), uma das pioneiras no estudo da inclusão no Brasil.

HORA DE CONTAR. Alunos com deficiência intelectual estudam numeração associando placas a faces do dado.

Também vale lembrar que o trabalho não é um reforço escolar, como ocorria em algumas escolas antes de a nova política afinar o público-alvo do AEE. “Era comum ver nas antigas salas de recursos alunos que apresentavam apenas dificuldade de aprendizado. Hoje, a lei determina que somente quem tem deficiência, transtornos globais de desenvolvimento ou altas habilidades seja atendido nesses ambientes”, afirma Maria Teresa. Com o foco definido, o professor volta a atenção para o essencial: proporcionar a adaptação dos alunos para a sala comum. Cada um tem um plano pedagógico exclusivo, com as atividades que deve desenvolver e o tempo estimado que passará na sala.

Para elaborar esse planejamento, o profissional da sala de recursos apura com o titular da sala regular quais as necessidades de cada um. A partir daí (e por todo o período em que o aluno frequentar a sala de recursos), a comunicação entre os educadores deve ser constante. Se o docente da turma regular perceber que há pouca ou nenhuma evolução, cabe a ele informar o da sala de recursos, que deve modificar o plano. Outra atitude importante é transmitir o conteúdo das aulas da sala regular à de recursos com antecedência. “Se a turma for aprender operações matemáticas, é preciso preparar o aluno com deficiência visual para entender sinais especiais do braile”, exemplifica Anilda de Fátima Piva, professora de uma sala de recursos na EMEF João XXIII, em São Paulo.

Salas para todas as deficiências ou especializadas numa única?

NOVA HABILIDADE (esq.) Usando talheres adaptados, estudantes com deficiência física ganham autonomia FALAR COM AS MÃOS (dir.) Aprender Libras é umas das principais atividades de AEE para alunos com deficiência auditiva

No fim dos anos 1990, modelos distintos de salas de recursos chegaram ao Brasil. Algumas cidades começaram a montar suas próprias configurações, sem que os especialistas tenham eleito até agora um padrão ideal. Para Daniela Alonso, psicopedagoga especialista em inclusão e selecionadora do Prêmio Victor Civita – Educador Nota 10, a diversidade é positiva. “Como a proposta desses ambientes é nova, ter mais de um modelo é importante. Após algum tempo de experiência, aí, sim, pode haver consenso”, defende.

Em linhas gerais, é possível agrupar as diversas salas existentes em dois tipos. No primeiro, há recursos para atender a todas as deficiências. É o modelo defendido pelo Ministério da Educação (MEC) por meio das chamadas salas multifuncionais, instaladas a pedido de redes municipais ou estaduais (segundo dados oficiais, são 5,5 mil em funcionamento). O argumento principal é evitar deslocamentos e fazer com que todos os alunos com deficiência de um bairro ou comunidade sejam atendidos no mesmo local – cada sala tem estrutura para dez estudantes. “Isso tem a vantagem de aproximar a família da vida escolar dessas crianças. Os pais passam a ter mais informações sobre como auxiliar seus filhos na busca por autonomia”, afirma Maria Teresa.

NOVA HABILIDADE (esq.) Usando talheres adaptados, estudantes com deficiência física ganham autonomia FALAR COM AS MÃOS (dir.) Aprender Libras é umas das principais atividades de AEE para alunos com deficiência auditiva

A segunda perspectiva é realizar o AEE por deficiência, como ocorre na cidade de São Paulo. Não há grandes diferenças em relação à infraestrutura – as maiores distinções dizem respeito à formação do professor (leia o quadro abaixo). “No curso, damos ao educador uma formação específica na área em que ele vai atender. Oferecemos uma visão geral de todos os tipos de deficiência, mas ele se especializa em uma única”, diz Silvana Drago, assistente técnica de Educação Especial da Secretaria Municipal de Educação de São Paulo. No caso paulistano, as salas de recursos também ocupam espaço nas escolas regulares, e os alunos recebem transporte para o polo mais próximo que contemple sua deficiência.

Outras cidades experimentam uma combinação dos dois modelos para conseguir ampliar o atendimento. É a opção de Fortaleza. Por lá, de acordo com as previsões oficiais, até o fim de 2010 a rede receberá o reforço de 58 salas do programa do governo federal (hoje, são 105 salas próprias da prefeitura). O tempo vai dizer qual o melhor modelo e se será necessário optar por um. “Não sabemos ainda como esse processo vai se encaminhar, mas o momento é de otimismo”, afirma Daniela. “Antes, faltavam iniciativa e oferta de recursos para AEE. Agora, esses dois fatores já existem.”

O desafio da (boa) formação específica

Por mais que os equipamentos das salas de recursos sejam importantes, é a atuação do professor que tem mais impacto na aprendizagem. Entre as responsabilidades do educador propostas pela nova lei, estão a criação de um plano pedagógico específico para cada aluno e a elaboração de material. “Nesse sentido, o caminho para uma inclusão efetiva é a formação”, afirma Rossana Ramos.

O tipo de formação varia de acordo com o modelo de AEE adotado pela rede. Na proposta do MEC, o curso é a distância, dura 400 horas e aborda todas as deficiências. “A metodologia é a do estudo de caso, em que os participantes investigam a melhor conduta para cada aluno”, explica Claudia Pereira Dutra, secretária de Educação Especial do MEC. Na cidade de São Paulo, por outro lado, a ênfase é na deficiência em que o professor vai atuar. No curso, presencial, o conteúdo é específico por deficiência. Por exemplo, o professor que precisa trabalhar com cegos aprenderá braile e o uso de aparelhos de apoio. Para Daniela Alonso, a formação ainda está longe do ideal. “É uma medida emergencial para atender à demanda das salas. Tem sido útil para divulgar o tema, mas precisa melhorar.” Uma das maiores necessidades é ampliar o espaço para a prática. “Não há nenhum programa de estágio, o que seria essencial”, finaliza.

Quer saber mais?

CONTATOS
EE Emiliano Augusto Cavalcanti de Albuquerque e Melo
, (11) 3022-5387
EMEF João XXIII, (11) 3872-5911
EMEI Professor Benedicto Castrucci, (11) 3872-0084
Maria Teresa Mantoan
Rossana Ramos

BIBLIOGRAFIA
Caminhos para a Inclusão
, José Pacheco, 232 págs., Ed. Artmed, tel. 0800-703-3444, 60 reais

Fonte: http://revistaescola.abril.com.br/inclusao/educacao-especial/conheca-salas-recurso-funcionam-verdade-para-inclusao-deficiencia-546795.shtml?page=1

21 Respostas to "Conheça as salas de recurso que funcionam de verdade para a inclusão"

Olá amiga Angélica…vou confeccionar um com muito carinho
para o seu cantinho especial!!

e prometo ajudá-la no quer precisar…um beijão!! =)

Sou professora especialista em educação especial e inclusiva pela APAE e prefeitura de Paulistania e estou interessada em receber artigos, leituras, informações sobre essa área…
Obrigada…
Ana Paula Aporta

Olá Ana, obrigada pela visita!
Aqui no blog vc encontra bastante material sobre o assunto e sugestões de links para outros sites e blogs onde pode encontrar mais coisas!
abç,
Angélica

Boa Tarde,
Estou fazendo um curso de AEE, e adorei ter achado esse site, acho que vai me ajudar bastante.
Abraços

Myrna

Olá,
que bom que gostou do site e que este irá te ajudar!
abç,
Angélica

Boa noite,ja fiz curso em Goianio AEE adorei >agora estou fazendo um de altas habilidades/superdotação.Gosto de pesquisa tudo

Olá,
que bom que está sempre se aperfeiçoando, pois isso contribui muito para nossa prática!
Acesse o site http://psicopedagogavaleria.com.br/cursos.htm e confira a programação do curso de AEE. Quem sabe você se interessa???
abç
Angélica

QUERO RECEBER TUDO NA EDUCAÇÃO ESPECIAL É MINHA ÁREA

Olá Eva,
para ter acesso ao material postado no blog, basta acessá-lo e pesquisar. Não tenho como mandar por email tudo que posto no blog, mas vc pode se increver para receber as atualizações em seu email. Basta entrar no blog e clicar do lado inferior direito na tela em “Inscreva-se neste blog!!!”
abç,
Angélica

Gostei das reportagens, as mesmas auxiliam no noso dia a dia.

Olá,
obrigada pela visita e comentário no blog!
abç,
Angélica

Amei este blog, como é diversificado, muito obrigada!
Alba

Sou pedagoga com especialização em educação especial e educação inclusiva.
Estou iniciando atendimento numa sala de recurso, gostaria de ler mais sobre o planejamento de atendimento dessa sala, como devo fazer o plano de ação?
Abraço

Olá Ivonete,

obrigada pela visita e comentário no blog!
a sala de recursos não possui um planejamento único, pois cada aluno que você for atender deverá ter o seu PDI (Plano de Desenvolvimento Individual). Consulte modelos de PDI clicando na categoria do lado esquerdo do blog.
abç,
ANGÉLICA

Olá sou diretora de uma escola de educacao infantil…e temos 03 autistas …também temos o AEE… e pelo que tenho lido…estamos no caminho certo…mas tenho uma preocupaçao!
Uma criança frequentava a apae, e depois que temos o aee, a instituicao na aceitou mais ela…ela perdeu ecoterapia, terapia ocupacional, nao temos isso na escola…como proceder nesta situaçao?

Olá Angela,

é preciso entrar em contato com APAE para saber por qual motivo a dispensaram, questionando se a criança não será prejudicada por estar sem os atendimentos que você citou. A família precisa “brigar” para que a criança não perca os atendimentos que lhes são necessários.

abç,
ANGÉLICA

Estou feliz por encontrar pessoas que desenvolve o mesmo trabalho
que eu,gostaria de receber tudo sobre educação especial,isso me interessa muito!
att
Eva Martins

Olá Eva,
obrigada pela visita e comentário no blog!
Os materiais estão disponíveis no blog para consulta sempre que precisar.
abç,
ANGÉLICA

Olá! Sou Edneide Lima, moro na cidade do Cabo de Santo Agostinho-Pernambuco. Estou ingressando no atendimento das Salas de AEE. Confesso que é tudo muito novo pra mim e procuro sempre ajuda para desempenhar cada vez melhor o meu trabalho. Achei teu material muito enriquecedor. Ajudou-me bastante a esclarecer algumas dúvidas. Vou te visitar sempre. Abçs!!!

Olá Edneide,

obrigada pela visita e comentário no blog!
abç,
ANGÉLICA

Olá, trabalho com o AEE, gostaria de receber tudo sobre educação especial! abraços.

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Incluir não significa apenas colocar no próprio ninho o estranho que vem de fora, sequestrando-o de sua vida plena; ao contrário,requer um sair de si e ir seu encontro,ofertando-lhe aquilo de que, efetivamente necessita.Incluir significa ouvir e responder áquilo que um outro pede pela sua própria voz. (Tunes;Bartholo)

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Imagem retirada de: http://trocandoideiassobreportadoresdedm.blogspot.com/2007_04_01_archive.html

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