ATENDIMENTO EDUCACIONAL ESPECIALIZADO (AEE)

Piolhos inclusivos

Posted on: 17/01/2012

Cristiana Soares

Minha filha Luísa, que tem paralisia cerebral, devia ter uns seis ou sete anos quando a matriculei no ensino regular. Antes passou por algumas escolas especiais, desde a chamada “estimulação precoce”. Tenho péssimas lembranças dessas escolas. A sensação que eu sempre tive foi: “a gente finge que é uma escola e vocês fingem que têm um filho na escola“.

Crianças “amarradinhas” em suas cadeiras, com milhões de cintos de segurança, superprotegidas, onde é impossível se levar um tombo. E impossível também se desenvolver. Até uma criança sem deficiência não se desenvolveria naquelas condições.

Silêncio deprimente. Nenhum som de gargalhada infantil. Nenhuma criança fazendo zona.

Um dia, a professorinha me disse: “Ah, eu adoro essas crianças especiais“. Foi como se eu tivesse ouvido “Ah, eu adoro cachorrinhos“. Penso que professora não tem que gostar de criança com deficiência. Professora tem que gostar de (e ter o maior saco com) criança. Tendo ela deficiência ou não.

Dia seguinte cheguei mais cedo e vi um quadro na parede onde apareciam, num ranking, estrelinhas para cada nome de aluno da classe. Perguntei a professorinha o que era aquilo e ela me respondeu que as crianças ganhavam estrelinhas de acordo com o comportamento.

Por exemplo: se fizessem xixi ou cocô na sala, não ganhavam estrelinhas naquele dia, caindo para os últimos lugares da lista. Aquilo não me cheirou nada bem.

Não é por meio de competição que uma criança aprende a controlar o esfíncter. Sorte da Luísa que ainda usava fraldas full-time naquela época.

Aos poucos eu fui ouvindo um mosquitinho que zumbia duas palavras no meu ouvido: “escola comum”.

E ainda sem saber o tamanho do barulho nem nada sobre leis ou movimento inclusivo, queimei a mufa para decidir. Passei as férias inteiras só pensando nisso. Até que resolvi matricular a Luísa numa escola sócio-construtivista que minha filha mais nova freqüentava.

Conversa com diretoras, professoras, auxiliar e tal. Luísa matriculada. Na primeira semana me liga a diretora, com voz meiga e gentil:

– Sabe o que é… dá pra você mandar um paninho… pra gente colocar na grama. Porque quando as crianças vão para fora da sala e a Luísa vai junto…a grama pinica, fica molhada de sereno.

Eu respondi no mesmo tom meigo e gentil:

– Olha… sabe o que é… deixa a Luísa sentir que a grama pinica, que o orvalho molha…

A diretora ficou muda do outro lado, sem saber como reagir. Este foi o episódio que iniciou minha militância inclusiva.

A experiência com essa escola foi gratificante, no geral. Logo nos primeiros dias de aula, Luísa voltava para casa com uma expressão diferente. Mais viva! Mais ligada e exuberante. “Cheia de si“, eu dizia na época. Outra criança.

No fim do ano, infelizmente, tive que mudá-la de escola porque a diretora havia me dito que no próximo ano Luísa não poderia mais ir sem fralda. Estávamos na fase da retirada. Então, volta e meia, escapava um xixi e ela tinha que ser trocada (sofás e carpetes de casa foram para o lixo). Na classe, havia uma auxiliar, que era uma graça e adorava a Luísa. Mas acho que não havia auxiliar na série seguinte (primeira série).

Para não pôr fim a iniciativa de tirar a fralda (parecia que só eu acreditava que isso seria possível), tive que tirá-la da escola (hoje agiria de outra forma).

Sempre lutando contra a superproteção, agora das escolas regulares, conseguimos praticar a inclusão até bem pouco tempo, quando Luísa, ao completar 13 anos, foi morar durante um período de sua vida com o pai (o que também é um trabalho inclusivo).

Ele, numa opção, a meu ver, retrógrada, matriculou-a em uma escola especial. Só me resta lamentar e torcer para que, vivenciando a situação, ele mude de mentalidade. Tenho feito intensa campanha para que isso aconteça.

Mas para explicar o título, conto uma passagem da Luísa em uma escola municipal aqui de São Paulo, a Olavo Pezzotti, na Vila Madalena.

O trabalho de inclusão que a professora Rosa vinha fazendo era tão bom que a Luísa se diluía nos meio da muvuca de tal forma que ficou difícil curá-la do piolhos coletivos.

Ela era tão abraçada e beijada que os piolhos se reciclavam em sua cabecinha. Eu os exterminava, eles voltavam.

Sentia ódio daqueles piolhos que nunca iam embora definitivamente. Mas ficava feliz por saber que piolhos só aparecem onde há muitas crianças, de todos os tipos, juntas! Para eles, assim como a meninada da escola teve oportunidade de aprender, criança é tudo criança. Elas se embolam, brigam e brincam. Com ou sem deficiência
Cristiana Soares
cristiana.sr@gmail.com
http://cidadao-pc.blogspot.com

 

Fonte: http://www.bancodeescola.com/piolhos.htm

26 Respostas to "Piolhos inclusivos"

Obrigada por compartilhar conosco esses momentos tão difíceis e os momentos felizes também.
Ao mesmo tempo que ri de algumas passagens, fiquei triste por ainda ver profissionais da educação ter essas atitudes.Vou fazer pedagogia, e espero não me tornar uma profissional com medo de fazer a diferença.
Boa sorte na caminhada e um beijo na Luíza por mim.

Olá Adriana,
obrigada pela visita e comentário no blog!

abç,
ANGÉLICA

É impressionante como as pessoas ainda fecham os olhos diante das outras pessoas. Respeito sempre foi o alimento das relações humanas, porque quem respeita é imprescindivelmente capaz de AMAR. Amei seu relato. Parabéns pela atitude firme frente aos desafios! É assim que se faz a diferença. Abraços para você e a Luísa!!!

Olá Michele,

obrigada pela visita e comentário no blog!

abç,
ANGÉLICA

Adoro as histórias da Cristiana. São encantadoras, de certa forma alegres e acima de tudo extremamente pedagógicas.
Angélica, parabéns pela entrevista.

Adorei o seu comentário,podemos tirar conclusões para o nosso trabalho com as crianças .

Olá Dorotéia,

obrigada pela visita e comentário no blog!

abç,
ANGÉLICA

Riquíssimo seu relato. Parabéns pela sua atitude!

Atenciosamente,

Edson Martins

Texto elucidativo que faz com que pensemos sobre o conceito real de inclusão seja na esfera escolar ou na vida pessoal! O que revela, por consequência, como nossas escolas e nós educadores estamos despreparados para tal tarefa! Mas também revela como devemos estar cientes desse despreparo e buscar restruturação das nossas ações no propósito de atender a TODOS os alunos independente de sua condição cognitiva, física e/ou social!

Olá Geane,
obrigada pela visita e comentário no blog!

abç,
ANGÉLICA

Cristiana me indentifiquei com sua história.
Tenho um filho deficiente visual e tbm estou como vc.
Tenho muita vontade de colocar meu filho na escola regular, mais me colocaram tanto medo que desistir.
Quem sabe agora com sua ajuda isso possa acontecer.
Parabéns….

Olá Flávia,

obrigada pela visita e comentário no blog!

abç,
ANGÉLICA

ola Angélica ao ler a pequena história de Luiza, lembrei do tempo em que eu trabalhava no ensino especial e me sentia incomodada como se o trabalho que ali eu desenvolvia não era o suficiente e só vim ter a resposta depois que passei a trabalhrar com a inclusão e hj recebo os frutos ali plantados o que me fez e faz compreender o que é realmente inclusão…

Olá Shirley,
obrigada pela visita e comentário no blog!

abç,
ANGÉLICA

Olha sua experiência me levou a um novo patamar de raciocínio.
Luto, brigo, converso e convenço meus colegas a realizar a inclusão de forma dinâmica para o aluno, deixando ele decidir o q trabalhar. Percebi q o simples toque da grama molhada, pode fazer a diferença, permitir q o aluno participe integralmente das atividades também é inclusão.
Obrigada por abrir meus olhos que estão serrados para este ângulo.
Um imenso abraço fraternal!!!!!

Olá Karionne,

obrigada pela visita e comentário no blog!

abç,
ANGÉLICA

Estou iniciando um trabalho, em uma sala de AEE, sua experiência me estimula a acreditar no trabalho de inclusão, e o quanto nós, enquanto família precisamos buscar ajuda para nossos filhos. Me entristece quando vejo uma rejeitar a ajuda que a escola oferece, por medo de reconhecer que seu filho é portador de uma necessidade especial, atrapalhando seu desenvolvimento. Parabéns!

Olá Maria José,

obrigada pela visita e comentário no blog.
A aceitação deve começar pela família, não é mesmo?

abç,
ANGÉLICA

Cada criança é uma criança, única e em processo de transformação. Sou feliz por poder fazer parte desse momento único e especial de aprender junto. De juntarmos nossos piolhos

Olá Vilma,

obrigada pela visita e comentário no blog!

abç,
ANGÉLICA

Angélica, boa tarde

Li este depoimento e fiquei boquiaberto.
Uma sensação boa entrou pela minha cabeça. Criando cultura de inclusão e tratando as crianças na igualdade.
Por que não uma chuva?? e os piolhos inclusivos?
Lindo.
Um abraço
Fabricio

Olá Fabrício,

obrigada pela visita e comentário no blog.

abç,
ANGÉLICA

Olá, sou mãe e professora, me identifiquei muito com esse texto e sei que ainda podemos ter esperanças sobre a inclusão. Apesar de estamos em pleno século XXI com tecnologias avançadíssimas, alguns seres humanos precisam evoluir e respeitar a singularidade de cada um.

Olá Cláudia,

obrigada pela visita e comentário no blog.

abç,
ANGÉLICA

Adorei esse depoimento da mãe que fala sobre o piolho inclusivo, também tenho um filho com necessidade especial e isso já me aconteceu de ser chamada na escola, para falar o porque meu filho não falava, então expliquei tudo novamente, e após quatro meses meu filho deslanchou começou a falar e a andar a se socializar com outros alunos, a escola foi maravilhosa e também tinham acompanhamento da APAE, adorei a escola e tiver que mudar de escola, nessa nova escola meu filho encontrou uma cuidadora maravilhosa que o ajuda muito.

Olá Marta,

obrigada pela visita e comentário no blog.

abç,
ANGÉLICA

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Imagem retirada de: http://trocandoideiassobreportadoresdedm.blogspot.com/2007_04_01_archive.html

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